sábado, 11 de março de 2017

OLHAR DE FOGO By KGKati - Conto

Na madrugada fria, algo a despertou. Não soube ao certo o que a fez sobressaltar-se. Sentou-se na cama, assustada, olhou através da janela do quarto e, aguçando os ouvidos, nada ouviu além do ruído forte dos trovões e da chuva que caia, abundantemente lá fora, onde a escuridão predominava na paisagem. Mesmo assim, não conseguiu mais dormir, quase certa de que estava em perigo.

Horas se passaram e ela continuou sentada na cama, abraçada às próprias pernas, só esperando o dia amanhecer. Mas antes que o sol despontasse no horizonte, ouviu um barulho estranho, vindo de longe, fazendo-a levantar-se e dirigir-se à porta de entrada da casa, automaticamente, como se uma força estranha a estivesse manipulando, como se não soubesse o que estava fazendo. Girou a maçaneta, abriu a porta e saiu.

Logo, a chuva caiu pesadamente sobre ela, encharcando completamente sua roupa de dormir, machucando seu rosto com pingos grossos e gelados. Os pés, descalços na relva, estavam como que pisando em nuvens, adormecidos pelo transe, sem estímulos sensoriais, fazendo-a andar a esmo no meio do mato íngreme e assustador.
 
Parou ao chegar perto do rio, ouvindo o barulho da água e sentindo a terra firme e molhada debaixo dos pés. A chuva diminuiu aos poucos, nuvens carregadas dando lugar ao céu iluminado pela lua cheia.

Olhou ao seu redor, atenta pela primeira vez, desde que saíra de casa. A primeira coisa que chamou a atenção da moça foi uma pequena claridade a alguns metros dela. Uma luz brilhante, direcionada para o nada, iluminava as folhas molhadas das árvores. Adiantou-se, chegou até ela e a pegou, uma pequena luminária de mão, caída e acesa no chão.

Assustada e então consciente de onde estava, a garota Iluminou o caminho percorrido, começando a voltar por onde já havia passado. Ouviu passos atrás de si e parou de andar. Imóvel, ouviu as folhas estalando no chão, devagar. Recomeçou a caminhar sem olhar para trás. O barulho continuou ainda mais forte, enquanto ela apressou o passo.

Desesperando-se, correu cada vez mais rápido, mas o que a seguiu aumentou a velocidade, fazendo-a olhar para trás ao senti-lo perto demais. Então o viu, um enorme cão negro, com o tamanho de um urso e uma mandíbula afiada na boca entreaberta. E o mais assustador é que tinha os olhos vermelhos como fogo.

Não pode evitar o grito que saiu de sua garganta diante daquela visão. Tropeçou em seus próprios pés e caiu, para levantar-se rapidamente e recomeçar a correr. O animal estava cada vez mais perto, uivando horrorosamente à lua cheia, cada vez que ela se escondia por detrás das nuvens.

Tropeçou e caiu outra vez no chão forrado de folhas molhadas. Quando achou que estava perdida, prestes a ser pega, arranhada, devorada pelo gigante cão negro, fechou os olhos, sentindo o bafo dele em seu rosto, o hálito fétido e os grunhidos deixando-a imóvel, estirada no solo, de barriga para baixo até que não ouviu mais nada.

De repente, ele sumiu.

Ela se levantou, devagar, olhando à sua volta, sem reconhecer o ambiente em que estava. Com a luminária ainda em mãos, procurou vestígios para tentar encontrar o caminho de volta para casa e recomeçou a andar. Os pés descalços pisaram em uma poça com um líquido espesso que não parecia ser água. Parecia ser... Sangue! 
Chocada e com muito medo, iluminou o chão onde pisava e viu ao lado, as partes de um corpo estraçalhado pelas garras do animal.

Gritou com força, até que sentiu alguém tocar atrás de seus ombros com as mãos, virando-a para si.

A lua reapareceu e iluminou-o. Um homem alto e musculoso, envolto num manto com o capuz escondendo seu semblante e por alguns instantes, de cabeça baixa, enquanto ela se debatia e batia nele com os punhos serrados, tentando escapar de seus pulsos fortes.

Mas quando ele finalmente encarou a moça, olhando-a diretamente com seus olhos vermelhos como fogo, com o poder da hipnose em sua mente, ela acordou sobressaltada. Estava de volta à sua cama, em seu quarto, molhada de suor, com o livro “A Maldição da Lua Cheia” em seu peito.

Relembrando o pesadelo que tivera, aliviou-se percebendo que fora um sonho estranho e assustador. Mas, um sonho. Vendo que faltavam algumas horas para amanhecer, aconchegou-se na cama e adormeceu novamente.

Quando acordou de manhã, ouvindo batidas estranhas na porta, levantou-se e vestiu o roupão para abri-la. Para sua surpresa, cinco cãezinhos olhavam para ela de dentro de uma cesta de vime. Todos com olhos cor de fogo. 



#KGKati.

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